Análise sobre a nova formação de professores proposta pelo MEC
7 de janeiro

Análise sobre a nova formação de professores proposta pelo MEC

Geral

A professora da UVA Betânia Virães foi convidada para comentar as mudanças na formação de professores da educação básica, propostas no fim de 2018 pelo Ministério da Educação (MEC). Na entrevista a seguir, a professora afirma que as propostas são interessantes porque deverão acabar com o comodismo da formação de muitos docentes, mas alerta para a necessidade de serem colocadas em prática de fato para não cair no descrédito. Confira!

UVA – Como a senhora vê as mudanças na formação de professores da educação básica que estão sendo propostas pelo MEC?
Betânia Virães – Acredito que essas mudanças irão sacudir os acomodados currículos dos cursos de formação de professores. Porém, como toda mudança, gera medo e desconfiança, o que é normal e compreensível em se tratando de um vasto histórico de tentativas naufragadas no cenário educacional brasileiro. Naufragadas, por falta de planejamento e seriedade nos processos de implementação. Espera-se que esta não seja apenas mais uma ‘mirabolante’ e ‘bonita’ proposta de mudança. Se for levada a sério, se as instituições privadas e públicas, os docentes e toda a comunidade escolar envolvida entenderem a proposta e assumirem a sua corresponsabilidade no processo, pode-se sim, vislumbrar um futuro grandioso na formação de professores e, consequentemente, uma elevação no índice educacional brasileiro.

UVA – Quais os pontos positivos que poderia destacar entre as mudanças?
Betânia Virães –
Um dos principais pontos positivo nesta proposta é que ela chama todos os envolvidos à responsabilidade de cuidar não só da formação dos professores, mas da forma como essa formação irá repercutir na prática pedagógica destes. A forma como o documento propõe o ingresso na carreira docente; o estágio probatório; a formação continuada e a progressão ao longo da carreira, apresenta um novo olhar na formação deste profissional tão importante para a construção de uma nação civilizada, de fato. Acredito que só através da educação é que se liberta e se forma um cidadão crítico e consciente do seu papel na construção de um mundo melhor para todos. Torço para que seja implantada com sucesso.

UVA ­- E quais os pontos negativos?
Betânia Virães –
Como tudo que é novo, tem que ser testado, avaliado, discutido, e refeito se necessário. Esse é um dos grandes problemas no Brasil, muitas propostas são impostas e implantadas a ‘toque de caixa’ o que faz, por muitas vezes, irem por água a abaixo. A palavra que falta é: PLANEJAMENTO. São muitas mudanças que estão sendo propostas, precisa-se de tempo para serem digeridas, entendidas e implantadas com seriedade.
Destaco aqui uma dessas questões:
O modelo é inspirado na residência médica e na de outros profissionais da saúde. A residência pedagógica inclui supervisão por um professor do curso superior de formação e apoio permanente de profissionais experientes da escola ou do ambiente de aprendizagem no qual se realiza a residência. Além de atividades práticas, os residentes terão que observar, analisar e propor intervenções na escola. A residência deverá ainda ser regulamentada por normas próprias.
A pergunta que se faz em torno da questão em destaque é: “As escolas estão preparadas para aceitarem as intervenções apresentadas pelos residentes? Os residentes terão maturidade teórica e prática suficientes para proporem essas mudanças?” Outros pontos da proposta também irão gerar várias polêmicas, por isso reafirmo que, para ter sucesso, essa proposta precisará passar por várias discussões com toda comunidade acadêmica envolvida, ou pelo menos por seus representantes.

UVA – Serão mudanças de fácil aplicação ou não? Exigirão das instituições de ensino um processo de reestruturação e treinamentos?
Betânia Virães –
Não, não serão mudanças fáceis de aplicação, as instituições públicas e privadas de formação de professores terão muito trabalho pela frente. Os currículos deverão ser revistos, as disciplinas práticas terão mais voz, por consequência as disciplinas teóricas também terão que ser reforçadas para darem um maior aporte teórico para a prática pedagógica. As instituições terão que envolver todo o seu corpo docente neste planejamento, terão que propor treinamentos, restruturações, etc, e assim promoverem uma formação contundente com as mudanças propostas. O caminho não é fácil, será longo, dependerá muito do envolvimento e compromisso de todos.

UVA – Haverá ganhos reais para professores e alunos, juntos? Ou os possíveis benefícios serão para apenas alguns?
Betânia Virães –
Insisto que se a proposta for bem implantada os ganhos serão para todos.

UVA – Especificamente sobre a volta do estágio probatório, qual a avaliação?
Betânia Virães –
Importantíssimo. Porém, hoje no curso de Graduação em Pedagogia da nossa faculdade o aluno começa a fazer estágios em escolas já a partir do primeiro período. Os primeiros são de observação e a medida que vai passando para os períodos seguintes os estágios vão exigindo o nível de cada período até chegar ao de regência. Considero um bom modelo porque permite que o aluno amadureça profissionalmente ao longo da sua formação. O que esta proposta vem acrescentar é a obrigatoriedade deste estágio para a formação de uma forma mais acompanhada pelas escolas sedes do estágio. É importante, também, a parceria que as instituições de formação terão que fazer com as escolas para receberem os alunos-docentes. Isso exigirá todo um preparo e disposição de ambos os lados para o sucesso do estágio probatório.

UVA – E sobre a formação continuada e a progressão ao longo da carreira, que vão exigir investimento tanto das instituições como dos próprios professores? Algo surreal para os tempos atuais, principalmente com a crise econômica?
Betânia Virães –
Sim, de fato é preocupante a questão financeira para o patrocínio dessa formação continuada, já que as instituições de formação e as escolas também terão que oferecer essa formação. Mas é fundamental. Um profissional da educação, não pode parar jamais de estudar. O conhecimento é mutante, como é a sociedade, como é o mundo, por isso não pode parar. É fundamental para a formação de qualquer profissional o estudo, a pesquisa, e o professor principalmente deve ter ‘fome’ de conhecimento, deve ser um curioso, um pesquisador nato, um leitor voraz. Esta é mais uma questão que se não for bem planejada, poderá não funcionar assim como está descrito na proposta.